22 de dez. de 2008

Hey you

Ela estava sentada no colo dele. Tinha a taça de vinho na mão direita. A esquerda, por sua vez, percorria a nuca do amado. (Amado mesmo?) Ele mantinha os olhos na altura dos seus. Ainda não estava completamente recuperado do acidente, mas seu sorriso continuara intacto. Sabiam que aquela era a única coisa que ninguém poderia roubar, a alegria. Em compensação, o amor...

Ele sorriu e pediu se ela se importaria caso ele resolvesse abrir o orkut para checar seus scraps. Lógico, não se importava. Levantou com o pretexto de buscar mais vinho para que ele tivesse privacidade, mas antes que se colocasse inteiramente em pé duas mãos seguraram-lhe pela cintura obrigando-a a sentar novamente.

-         sua taça ainda está cheia.

-         Mas a sua está vazia.

-         Eu bebo da sua, então.

Com os lábios entre abertos, ele aproximou a boca da taça. Ela virou devagar para que ele bebesse um curto gole e depois o beijou. Beijou-o com amor. (Amor?) Permaneceu sentada enquanto ele clicava aqui, ali e acolá. Sorria com suas ironias internas, suas piadas particulares. Assustou-se quando ele fechou a janela aberta na tela e a encarou.

-         voce não vai ver os perfis de quem te visitou?- ela pediu.

-         Não. não vejo necessidade... porque?- ele parecia se divertir.

-         Eu vejo sempre...

-         Mas agora eu prefiro deitar você naquele colchão a ficar vendo orkut.

-         Só me deitar?

Ele sorriu novamente. Amariam-se novamente em três minutos. Dois... Um...


Depois de meses, ele lembrou disso tudo. Como se não bastasse, quis que ela o fizesse. Talvez estivesse com saudades. Talvez quisesse alertá-la. Talvez fosse somente curiosidade. Quem sabe tivera medo de deixar qualquer recado, qualquer comentário em alguma foto, afinal, a namorada poderia reclamar. "Como assim, voce está deixando recadinhos pra sua ex?" ela diria.

Mas ela não tinha ciúmes da atual namorada. Tinha uma certa inveja dos sorrisos, risos, lagrimas que a privava de partilhar com ele. Eram amigos, afinal. A nova sim, ela era a namorada, aquela que ele chamava de ‘amor’. Era além de sua compreensão os motivos que levaram ao cabo do relacionamento. Primeiro, os dramas, os jogos que ela se forçava a jogar. Depois, as palavras que sua educação impedira de pronunciar; tal qual ‘eu te amo’. E por fim, a presença da nova mulher (mulher e não menina como ela).

Como uma criança feito ela poderia competir com a outra? A primeira com suas unhas sem pintar (porque ele não gostava), seus cabelos longos e negros caindo pelas costas, seu corpo magro, fino, ágil, seus olhos tristes. E a segunda com suas unhas feitas (supunha), seus cabelos loiros perfeitamente arrumados, suas roupas de grife e seu sorriso falso. A primeira sempre valorizando os livros que ambos leram, enquanto a segunda, quantos copos de cerveja partilharam.

Quem sabe ele tivesse tentado preveni-la de uma surpresa qualquer. Quem sabe estivesse realmente com saudades ou receio de encontra-la e não saber como agir. Ela não sabia.

Ou talvez quisesse somente lembra-la de que a vida continua e que ela ainda poderia amar alguém que não fosse ele ou o seu amigo.

Mas as vozes que ouviram juntos naquele dia ainda pairavam em sua mente farta de interpretações; Open your heart, I’m coming home. De fato, ele voltava pra casa.

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