3 de fev. de 2009

Escuta!

Escuta o rugido inaudível da alma em chamas.

 

Fogo!

Terminariam todos no fogo.

Rolariam pela brasa do inferno.

 

Vê o vazio que segue pele casa.

Conhece-a bem.

Entrou, já. Passou pela porta, sentou no sofá da sala.

Puxou-a para que sentasse em seu colo.

Jogou-a contra a parede e a beijou.

Lambeu-lhe os lábios.

Deixou as mãos percorrerem o corpo magro a sua frente.

Magro. Sujo. Infame.

Foi até a cozinha. Abriu a geladeira. Bebeu água.

Subiu as escadas.

Entrou no quarto. ela o aguardava.

Deitada na cama - nua.

Pálida. Magra. Suja. Infame.

Lambeu-a. Penetrou-a. Lambuzou-se.

Desceu as escadas.

Lavou as mãos.

Partiu.

E agora não escuta mais os soluços que correm pela casa com a voz vacilante.

Ela espera.

Teme.

Suporta.

Treme de frio e medo.

Agonia e traição.

Angustia e desespero.

 

Agora não escuta o leve som dos passos incertos que ela dá.

Rumo ao nada.

Sem direção alguma.

Seguros de morrer.

Ela caminha devagar.

Possuída pela angustia de ser.

Tomada pelo tédio enfadonho e perverso da ausência.

Não escuta a própria crueldade.

Não se vê no espelho.

Evita-o.

Evita a todos.

Evita a si própria.

Ignora a maçã que ela oferece.

 

Não é mulher.

É cobra.

Cobra traiçoeira.

É fagulha.

Risco de fogo que arde na pele.

É sangue.

A menstruação que corre pelas coxas machucadas.

É o riso contido.

O poema inacabado.

O gozo interrompido.

 

Escuta!

 

Escuta o grito.

Arde no fogo.

Sente!

Pára!

Respira!

Escuta... escuta...

 

 

Silêncio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário