Escuta o rugido inaudível da alma em chamas.
Fogo!
Terminariam todos no fogo.
Rolariam pela brasa do inferno.
Vê o vazio que segue pele casa.
Conhece-a bem.
Entrou, já. Passou pela porta, sentou no sofá da sala.
Puxou-a para que sentasse em seu colo.
Jogou-a contra a parede e a beijou.
Lambeu-lhe os lábios.
Deixou as mãos percorrerem o corpo magro a sua frente.
Magro. Sujo. Infame.
Foi até a cozinha. Abriu a geladeira. Bebeu água.
Subiu as escadas.
Entrou no quarto. ela o aguardava.
Deitada na cama - nua.
Pálida. Magra. Suja. Infame.
Lambeu-a. Penetrou-a. Lambuzou-se.
Desceu as escadas.
Lavou as mãos.
Partiu.
E agora não escuta mais os soluços que correm pela casa com a voz vacilante.
Ela espera.
Teme.
Suporta.
Treme de frio e medo.
Agonia e traição.
Angustia e desespero.
Agora não escuta o leve som dos passos incertos que ela dá.
Rumo ao nada.
Sem direção alguma.
Seguros de morrer.
Ela caminha devagar.
Possuída pela angustia de ser.
Tomada pelo tédio enfadonho e perverso da ausência.
Não escuta a própria crueldade.
Não se vê no espelho.
Evita-o.
Evita a todos.
Evita a si própria.
Ignora a maçã que ela oferece.
Não é mulher.
É cobra.
Cobra traiçoeira.
É fagulha.
Risco de fogo que arde na pele.
É sangue.
A menstruação que corre pelas coxas machucadas.
É o riso contido.
O poema inacabado.
O gozo interrompido.
Escuta!
Escuta o grito.
Arde no fogo.
Sente!
Pára!
Respira!
Escuta... escuta...
Silêncio.
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