14 de jan. de 2009

Mãos

E ele olhou pra ela.

Olhou e sorriu.

Sorriu como há tempos ela não via.

Ele olhou, sorriu e acenou.

O mesmo aceno de sempre. Tímido, secreto, que escondia uma história e um desejo mutuo. Ao menos da parte dela.

Ele olhou, sorriu, acenou e passou.

Sem tempo para vergonhas, sem tempo parar enganos.

Ela somente reparou a camiseta preta. Como ele ficava lindo vestindo aquele negro de um negrume tão negro que enegrecia a alma de quem olhasse por muito tempo. Aquela cor impenetrável, o luto voluntário, luto pela própria alma que jazia em punição no mármore do inferno.

Ambos iriam abraçar o diabo. Quando chegassem, cada um ao seu tempo, ele diria; Porque demoraram tanto?

Embora a morte tentasse, não conseguia alcança-los.

Ela estava ainda imersa naquele olhar. Aquele instante resumia a existência.

Eram esses segundos, em que ele olhava pra ela, sorria, acenava e partia, que faziam tudo valer a pena.

Haviam ainda alguns minutos ou segundos que a separavam do desespero.

Nesse momento, ele desejava a outra. A puritana gostosinha que usava lingerie branca e corria de corpetes e pulseiras de tachinhas. A dos cabelos lisos. A loira, quem sabe. A dos seios grandes.

Ao menos, com ela, era possível quase quebrar pela cintura fina.

Desejou então que ele o fizesse.

‘ Venha, meu amor, quebre minha cintura. Parta-me ao meio. Quebre minha coluna e minhas costelas. Corte minha pele e assista o sangue correr, manchando suas roupas. Corte minha garganta. Beba meu sangue. Coma minha carne enquanto estou viva. Arranque às dentadas. Lambuze-se com a minha menstruação. Sinta meus nervos se rasgarem em seus dedos enquanto voce os puxa pra fora, rouba-os de mim. Corte minha língua. Morda meus lábios. Faça sangrar minhas coxas até encontrar o osso. Roa meus ossos, não deixe sobrar nada, nem pó.’

Sob aquela perspectiva, acalmou-se.

Não tinha duvidas, morreria pelas mãos dele.

Pelas mãos.

Nunca nos braços.

Ele não ousaria acolhe-la.

Dar carinho era garantir um motivo, outro motivo para ela ficar.

Queria-a longe de si.

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