E ele olhou pra ela.
Olhou e sorriu.
Sorriu como há tempos ela não via.
Ele olhou, sorriu e acenou.
O mesmo aceno de sempre. Tímido, secreto, que escondia uma história e um desejo mutuo. Ao menos da parte dela.
Ele olhou, sorriu, acenou e passou.
Sem tempo para vergonhas, sem tempo parar enganos.
Ela somente reparou a camiseta preta. Como ele ficava lindo vestindo aquele negro de um negrume tão negro que enegrecia a alma de quem olhasse por muito tempo. Aquela cor impenetrável, o luto voluntário, luto pela própria alma que jazia em punição no mármore do inferno.
Ambos iriam abraçar o diabo. Quando chegassem, cada um ao seu tempo, ele diria; Porque demoraram tanto?
Embora a morte tentasse, não conseguia alcança-los.
Ela estava ainda imersa naquele olhar. Aquele instante resumia a existência.
Eram esses segundos, em que ele olhava pra ela, sorria, acenava e partia, que faziam tudo valer a pena.
Haviam ainda alguns minutos ou segundos que a separavam do desespero.
Nesse momento, ele desejava a outra. A puritana gostosinha que usava lingerie branca e corria de corpetes e pulseiras de tachinhas. A dos cabelos lisos. A loira, quem sabe. A dos seios grandes.
Ao menos, com ela, era possível quase quebrar pela cintura fina.
Desejou então que ele o fizesse.
‘ Venha, meu amor, quebre minha cintura. Parta-me ao meio. Quebre minha coluna e minhas costelas. Corte minha pele e assista o sangue correr, manchando suas roupas. Corte minha garganta. Beba meu sangue. Coma minha carne enquanto estou viva. Arranque às dentadas. Lambuze-se com a minha menstruação. Sinta meus nervos se rasgarem em seus dedos enquanto voce os puxa pra fora, rouba-os de mim. Corte minha língua. Morda meus lábios. Faça sangrar minhas coxas até encontrar o osso. Roa meus ossos, não deixe sobrar nada, nem pó.’
Sob aquela perspectiva, acalmou-se.
Não tinha duvidas, morreria pelas mãos dele.
Pelas mãos.
Nunca nos braços.
Ele não ousaria acolhe-la.
Dar carinho era garantir um motivo, outro motivo para ela ficar.
Queria-a longe de si.
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