A voz sussurrada em seu ouvido. Sabia que era a voz dela. Uma voz mandada por ela. Desenvolveram a técnica juntos, ele falava e ela sabia, se alguma forma, ela sempre sabia o que ele estava pensando ou sentindo. Então o feitiço se voltou contra o feiticeiro.
Ela lhe dizia que estava com frio, com dor na virilha no lado direito (ele fechou os olhos), com muito, muito frio e apenas a virilha estava quente. A dor vinha em ondas de calor. Espasmos.
E ele não queria mais ouvir. Não queria mais saber de nada daquilo que o machucava mais que os próprios ferimentos. O que ela fez consigo mesma? mutilara-se pra que? Pra quem? Enquanto ela via o sangue correr, com febre e fome e sono e frio e ele ouvia a voz que chegava aos seus ouvidos nos mesmos sussurros que ela dava quando o sexo esquentava, ele se dava conta da verdade que não queria conhecer.
E ela devia morrer.
E tinha que ser pelas mãos dele.
Mas ela estava errada! Ele não lhe daria as costas. Ele a pegaria no colo enquanto o sangue jorrasse e enquanto ela ainda estivesse quente e enquanto ela ainda estivesse fria. Ela nunca sairia dele e por isso nunca poderia morrer. Ao menos, não durante o período que ele sobrevivesse.
Então ela devia morrer.
E tinha que ser pelas mãos dele.
E ele tinha que morrer.
E tinha que ser pelas mãos dela.
Quem sabe ela tivesse certa. Talvez ele tivesse o sangue frio de cortar aqueles pulsos brancos tão pálidos e continuar seu caminho sozinho. Sempre estivera sozinho e ela viera atrapalhar sua solidão. Viera tira-lo de sua tristeza. Estava certa, portanto!
Ela devia morrer.
E tinha que ser pelas mãos dele.
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