14 de jan. de 2009

Olhares

Queria sangrar ao lado dele. Queria ver-se esvair naquele liquido viscoso que sempre a fascinara tanto olhando para os olhos dele. Aqueles olhos! Os mais profundos que já viu. Impenetráveis. E de batalhas de olhares ela entendia, embora preferisse fugir delas na maioria das vezes.

Mas aqueles olhos a prendiam naquele dezembro. Fazia quase um ano. Esquecera o timbre daquela voz. Esquecera do perfume que a deixava tonta de prazer. Esquecera da língua em seu sexo. Esquecera os cabelos longos dele colados em sua pele suada. Esquecera a dor suave e deliciosa do sexo dele invadindo o seu.

Fora apenas isso...

Continuava sendo apenas isso.

Mas ainda haviam aqueles olhos. Ela jurava que eles eram verdadeiros. Vira quando o olhar dele encontrara o seu durante o sexo e perdeu o fôlego. Deixou-se cair no abismo, estava entregue. Deixou de crer em santos, romanceiros e poetas. Toda a poesia, todo o sentimento do mundo se encontrava nas profundeza daqueles globos de íris castanho clara.

Ainda haviam aqueles olhos. A pele macia, a barba que roçava seu pescoço, os cabelos que se misturavam aos seus...

E agora ele fechava os olhos. Talvez o prazer fosse maior, a entrega menor. Vira-se nele tal como era. A pessoa fraca que não suporta olhar nos olhos por medo de se entregar em demasia.

Os olhos se fecharam para ela.

Os lábios se fecharam, não permitiam mais a entrada da sua língua e mesmo assim, queria morrer ao lado dele. Sonhava com o dia em que ele a convidaria para entrar em seu carro. Usaria aquele espartilho que ele adorava, a cinta-liga com a qual ele delirava e as botas de cano longo e salto agulha. Deixaria os cabelos lisos, longos e soltos. A maquiagem pesada para deixa-la com uma aparência ainda mais morta. Apenas os olhos seriam vivos. Vivos da vontade de encontrar aquele olhar. Vivos até que parassem de interpretar coisa alguma.

Uma vez dentro do carro, seguiriam para o motel mais próximo, afinal, o que era ela? E na curva que o antecede, numa velocidade incrível, ele faria o carro capotar varias vezes antes de bater numa arvore. Morreriam juntos, abraçados num mar de chamas. Nenhum dos dois iria pro céu e sempre souberam disso.

Aqueles olhos estavam abertos, os lábios mostravam um sorriso duro. Chupe mais, meu amor. Deitados lado a lado, não se tocavam. Ela saboreava a doce vontade de um cigarro. Ele, a entorpecência graciosa do sono olhando para o teto do quarto.

Não suportava abraça-lo e não ser abraçada por ele. Aquele homem era um estranho. Não era a pessoa que a prendera no verão, naquelas tardes quentes, ensolaradas. Aquelas tardes em que se permitiam sentir com a alma e não apenas com a pele. Ele mudara e não permitira que ela fizesse o mesmo. Segurava-a naqueles dias para não ter que recorrer a outra pessoa. Sabia que ela voltaria. Sempre voltava.

Ele morreria com ela? Acreditava que sim. talvez a tentação da morte ficasse mais clara ao vê-la abrir os próprios pulsos com o olhar sedento de atenção. Não tentaria voltar atrás caso os olhos dele se abrissem para ela novamente, ao contrario, sorriria agradecida por um ultimo momento de prazer.

Sabia que se fosse por primeiro, ele a encontraria no inferno sem muita demora. Já tinha perdido um ano, mais um ou dois não iria mata-la. já estaria morta, afinal. Iriam passear de mãos dadas pela estrada, iriam se beijar sob um chão de giz e quando atravessassem os portões do inferno as almas em punição os conduziriam à cama redonda que os estaria esperando. Amariam-se então.

Manteriam os olhos abertos, mas não teriam mais coração para sentir.

Ao menos, enfim morta, poderia vê-lo amar alguém sem que sua presença o atormentasse.

Morrer era sair da vida dele, deixa-lo livre para ser feliz.

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